segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Entrevista de Eduardo Campos ao Estadão


Como o sr. vê hoje a economia mundial e, nesse contexto, o Brasil?

Estamos vivendo um ciclo que soma uma crise econômica, uma crise ambiental e uma crise de valores. Vai durar alguns anos e nela o Brasil tem uma grande chance de se reposicionar, de maneira mais competitiva. Esse é o debate que nos anima. Há um excesso de liquidez no mundo, que não vem para cá, e dúvidas sobre os rumos do capitalismo. 

Há um modelo para sair da crise?

Acho que não há nada definido. Mas é óbvio que vamos viver um novo ciclo, a partir de novos valores. O sistema financeiro terá maior regulação. Não aqui, onde está ajustado. A sustentabilidade esta posta: é fundamental. Haverá um profundo debate sobre seguridade e saúde. Temos de encontrar formas de as pessoas precisarem menos de redes de assistência. Esse é um debate que as lideranças responsáveis vão ter de fazer.

Com mais Estado ou menos Estado?

Como Estado necessário. Veja, quando a banca quebrou, em 2008, tivemos mais Estado... Mas o Estado não pode mudar as regras, não pode haver cavalo de pau em regras, elas têm de ser cumpridas. Precisamos de um Estado que funcione, não entregue às elites nem ao corporativismo.

Como o Estado pode ter papel decisivo se nossa poupança interna continua baixa? Ela está hoje, dizem, em 19% do PIB. O Peru tem 30%, o Chile 27%...

Temos de estimular outros mecanismos de financiar a infraestrutura a longo prazo, estimular as PPPs, concessões onde puder haver concessões, financiá-las não só através de bancos públicos. Temos de nos tornar uma aposta para quem tem dinheiro. O Brasil está hoje perdendo esse foco de investimento externo porque há uma sensação de que existe controle excessivo do lucro. 

O sr. disse recentemente que o País precisa de um novo consenso. 0 que seria exatamente?

A formação político-ideológica da presidente todos nós conhecemos. Acho que ela é uma mulher corajosa, séria, tem espírito público. Mas sabe-se que, na política e na economia, muitas vezes a versão é mais forte que o fato. E o fato é que houve uma série de providências. Não há polêmica a respeito de reduzir juros, reduzir conta de energia, aumentar as concessões. Outro fato é que a presidente acelerou o conteúdo dessa pauta em função da própria crise. Em 2011 houve, a meu ver, um freio maior do que o que deveria ter sido dado, por temor do processo inflacionário. E há também o fato de a crise ter sido enfrentada a um só tempo e com menos diálogo, menos discussão do que deveria, talvez pela pressa, pela quantidade de assuntos ou por falta de iniciativa do governo e falta de iniciativa dos empresários. A versão que começa a cravar neste final de ano é mais dura que o fato, como se não houvesse segurança para investir. É algo que a gente precisa rapidamente esclarecer.

Como a presidente Dilma faria esse esclarecimento?


Com atitudes epalavras.Tem marcos que se quermelhorar, como o dos portos, que vai mudar, mas não a regra para quem já tem contrato.

Como vê a economia nos próximos dois anos? O Ministério da Fazenda tem formulador para tempos de crise?

Para quem tem mandato construído em 2010, é o biênio das entregas. Os dois primeiros anos são de montagem da equipe, de plantar os programas. Os dois finais são de cobrança, mais duros. Acho que a Fazenda repetiu uma série de medidas que há mais de 20 anos vêm sendo tomadas sempre que há baixo crescimento e agora se percebeu que outras medidas são necessárias para um crescimento que vá, em 2013, acima dos 3%. As previsões de receita que a Fazenda faz para municípios e Estados estão inteiramente fora do repasse dos tributos da União. Começaram o ano
dizendo que era 14% e vai terminar com menos 2%. É óbvio que uma previsão como essa deixa os parceiros em sobressalto.

O governo FHC estabilizou, o governo Lula distribuiu renda. De Dilma esperava-se o crescimento. Seria necessária alguma medida diferente, como uma "URV do crescimento", e não a repetição de antigas medidas?

A pauta negligenciada da micro economia já está esgotada. O consumo teve um papel importante, mas não terá mais a expressão dos últimos seis anos. Precisa aumentar a competitividade com educação, com inovação, com infraestrutura. É hora de uma grave e importante aposta no crescimento, e para fazer isso é preciso, de um lado, garantir as regras para a iniciativa privada. Estamos falando de setores essenciais para formação bruta de capital do País, petróleo, comunicação, energia, telecomunicações, portos, aeroportos. É uma tarefa de todos nós, e não podemos alimentar sobressaltos sobre isso. De outro lado, temos de garantir que a poupança externa possa alavancar esses investimentos. A gente tem de encontrar mecanismos que outras nações encontraram. Veja os números: os Estados são hoje os primeiros investidores, os municípios os segundos e a União o terceiro. De um lado precisa capacitar a máquina pública, para que seja dirigida por quem tenha tanta qualidade quanto há nos órgãos de controle. Temos
de preparar, mastambém desconcentrar. Se temos de ganhar em 2013 e 2014, precisamos descentralizar os recursos dos investimentos.


Então o sr. concorda com as queixas e o movimento de protesto dos outros governadores.


É claro. Antes mesmo de uma reforma de tributos, as pactuações já existentes entre União, Estados e municípios precisam ocorrer de forma mais acelerada. Tem de ter ferramentas inovadoras, coisas mais inteligentes para que o investimento aconteça. Será que não precisamos, agora, de uma desoneração linear na carga tributária brasileira, para que todos pudessem ser impactados?

Seu avô paterno, Fernando Campos, era um usineiro conservador e o materno, Miguel Arraes, um socialista. Como isso se juntou emsuavisão do mundo?

Na moderação. Tive relação próxima com os dois, eram pessoas diferentes que no final passaram a se conhecer e a se respeitar, conviver. Convivi com posições opostas e respeitá-las me fez valorizar o pensamento dos outros. Aprendi com os dois. 

E se tornou um moderador.

Admirava os dois no que eu podia admirar. Um que lutou para fazer seu patrimônio, dar conta de suas responsabilidades, com uma visão política que não era a minha. E o outro com cujo pensamento eu tinha completa sinergia, o sonho de consertar um bocado de coisa errada que tem no mundo.

O sr. acaba de desbancar o lulismo na terra de Lula, lançou um candidato novo e venceu. Criou-se agora uma nova paisagem política em Pernambuco, em que o PT perde a liderança?

A leitura da eleição é que o PSB teve um crescimento acima até do que a gente esperava. Esse crescimento vem ocorrendo em eleições repetidas. Fizemos um planejamento estratégico para crescer não só no Norte e Nordeste, mas em todo o Brasil. Crescer em grandes cidades para animar o ingresso na política de novos quadros.

Confrontar o PT foi uma decisão pensada? Até onde o PSB quer chegar?

No Recife, como em Fortaleza, o pensamento inicial não era ter candidato, tínhamos uma aliança já de 12 anos no Recife, mas o PT sofreu desgaste de uma disputa interminável. Não se trata de desbancar o Lula, de forma alguma. As pessoas queriam paz, trabalho e resultado. Perceberam que nosso candidato falava de maneira adequada, tinha experiência e tinha nosso apoio. Acho que ele vai surpreender positivamente, vai criar um novo paradigma de como deve ser um prefeito.

O presidencialismo de coalizão, obrigando a tantos acordos para obter votos no Congresso, não atrapalha os projetos do governo?

Já fui do Congresso e do governo, estive nos dois lados. Acho que onde há democracia tem de haver dialogo. O problema do Brasil não é esse, é a agenda econômica e a social. A gente, é claro, tem de fazer a reforma política, a possível, com tempo. E necessário fazer eleição no mesmo ano, por exemplo. Isso obrigará os políticos com cabeça municipal a ficar nos municípios, os estaduais nos Estados e os que pensam nacionalmente em Brasília. As eleições descasadas super-eleitoralizam o debatepolítico. A eleição a cada dois anos interrompe convênios e programas por todo lado. Não há longo prazo. 

Quais os próximos passos do PSB, depois das vitórias de outubro?

O cenário de 2014 vai depender muito do que acontecer em 2013. Acho que nossa tarefa, enquanto base de sustentação da presidente Dilma, é ajudá-la a ganhar o ano de 2013, o que será bom para o Brasil e para ela. Se ela ganha 2013, 2014 já começa praticamente resolvido. É isso, o desenho de 2014 tem relação direta com o que ocorrer no ano que vem. Aí a reeleição será de um governo aprovado, coisa quase natural, sem sobressalto.

E se ela não ganhar 2013? Se em dezembro próximo estiver como agora, por exemplo?

Não vamos jogar a toalha, o ano sequer começou. É preciso "ir pra cima", nossa parte é ajudar e a do governo é dizer como nós podemos ajudar. Poderemos dar idéias? 

Isso exige um bom diálogo. E o de agora, como o sr. assinalou, não é o ideal.

A gente tem de ter objetividade. Os 90 dias iniciais do ano que vem serão decisivos para 2014. E preciso desfazer essa impressão sobre as mexidas feitas, mostrar que o sentimento do governo não é intervencionista. Se não deixar isso claro, essa impressão de agora vai atrapalhar 2013. Nós podemos ajudar, mas quem pode zerar isso é exatamente o governo, é a presidente.

Os programas sociais melhoram a vida dos desassistidos mas o drama da economia hoje é a falta de mão de obra qualificada. Como resolver esse desafio?

Os programas sociais são da agenda do século 20, transformaram-se em programas enormes porque o fosso social que se criou no País levou a isso.Mas não podemos achar que é a agenda do século 21. O "Bolsa-Família do século 21" é creche para todas as crianças, educação infantil de qualidade, educação em tempo integral para os filhos dos mais pobres. É emancipar as futuras gerações, para pôr fim à necessidade dessas bolsas compensatórias. Se uma criança tiver uma educação de primeira infância de qualidade, acesso a ensino integral, não vai precisar de bolsa nenhuma.

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