terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Henrique e o vazio


Por Vicente Serejo (Jornal de Hoje)


Vai ser um prejuízo para o Rio Grande do Norte se denúncias como essa de Veja, grandes ou pequenas, como sejam, venham de alguma forma impedir a chegada do deputado Henrique Alves à presidência da Câmara Federal. Menos por ele, hoje líder nacional do seu partido, com 11 mandatos, e mais pelo Estado que ao longo das últimas décadas sofreu um esvaziamento de representatividade, a ponto de ficar sem voz determinante, empobrecido e anônimo, na cena política e na vida nacionais.



Dito assim pode parecer um exagero, mas os nomes perdidos dispensam os argumentos: de 1984 a 2012, perdemos o senador Dinarte Mariz (1984), o escritor Câmara Cascudo (1986), o ministro Aluizio Alves (2006) e o cardeal Eugênio Sales (2012). Para não levar a memória a nomes mais remotos, como Tavares de Lyra, o ministro do presidente Afonso Pena; Amaro Cavalcanti, ministro do Supremo e da Corte internacional de Haia e Café Filho que chegou a presidir o Brasil.
Aliás, se fosse para recuar, caberia registrar nossa perda de substância no campo das idéias.


Rodolfo Garcia chegou à Academia Brasileira de Letras, onde é nome de biblioteca, foi diretor da Biblioteca Nacional e o historiador mais respeitado de sua época. Peregrino Júnior presidiu a ABL; Jayme Adour da Câmara, o modernista que editou a Revista de Antropofagia; e Octacílio Alecrim, eleito membro do Proust Club na França, em Paris, foi o fundador do Proust Clube aqui no Brasil.


Hoje, o que temos? Nunca tivemos tantos políticos. No entanto, nunca fomos tão anônimos. Jamais lançamos tantos livros e conseguimos ser tão desconhecidos nacionalmente. A crise que nos abate, convenhamos, é de talento, único atributo capaz de compensar a limitação econômica de um Estado preso a uma região subdesenvolvida. Nossos políticos são marcados pela pobreza de espírito público e os nossos intelectuais não ousam estilosos que são na mesmice de macaquearem modelos.



Nesta fase de pobreza, e mais do que um ministro ou um senador vaidosos dos seus títulos e seus mandatos, o Rio Grande do Norte precisa de uma marca luminosa a ocupar espaço de decisão no centro do poder republicano. Mas, desde que tenha uma visão larga, acima das divisões pessoais e partidárias sempre tão provincianas e empobrecedoras do nosso horizonte. E, sobretudo, capaz de nos projetar além da estrada entre Natal e Mossoró, para levar a nossa voz forte aos grandes auditórios.



Ao deputado Henrique Alves, agora construtor do seu próprio destino, cabe mostrar-se por inteiro diante do Rio Grande do Norte e do Brasil. Sob pena de sucumbir na trama fina de denúncias e suspeitas, como esta que ocupa as páginas da revista Veja. E quanto menor a conta, como parece ser o caso de uma simples locação de automóvel, maior será o desgaste, na medida em que se deixar emaranhar no varejo de questiúnculas muito abaixo da magnitude do cargo que pretende ocupar.

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