quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Entrevista de Ciro Gomes ao jornal A Tarde

Não concordo com 100% do que disse Ciro. Admiro-o profundamente por sua inteligência, já não concordo muito com o jeitão dono da razão e duro de dizer algumas coisas.

Gostando ou não, admirando-o ou não, vale à pena ler a entrevista que Ciro Gomes deu ao jornal A Tarde, de Salvador-BA.


"O senhor disse que cansou de brigar na política nesses últimos 34 anos de atividade na área. Não almeja mais ser candidato à Presidência da República?
Não desisti. Só quero ser (candidato) agora se as coisas se organizarem para isso. Porque tenho uma tragédia na vida, da qual não me arrependo, que me traz à situação em que me encontro nesse momento: hoje, até por demérito dos outros, sou o político mais treinado, que tem a experiência mais extensa, municipal, estadual, federal ângulo tal, ângulo outro, acadêmico e com juventude relativa, 55 anos, e estou completamente proscrito do debate (político). Meu partido não me chama para nada, eu sou um inconveniente  para todo mundo. Isso porque eu não acho que vale a pena compactuar com o que está aí. Esse banquete fisiológico, clientelista, quando não corrupto, PT-PMDB.  Nós outros, PDT, PCdoB, PSB, comendo migalhas embaixo da mesa, sem ter a menor influência numa agenda progressista para o Brasil. Sequer o debate existe. Não me agrada esse império das conveniências, dos oportunismos. Talvez eu esteja ficando fora de moda. Mas eu sigo lutando. Amo a política, amo o povo brasileiro. Aos 34 anos de luta, nunca respondi sequer uma representação, nem para ser inocentado. Isso já tendo ocupado a chefia da economia do País. Continuo estudando, viajo para o estrangeiro, faço palestras, enfim, sou um militante e gostaria de ser o presidente do Brasil, mas, confesso, não quero mais brigar.



Mas e as declarações atribuídas ao senhor numa entrevista a uma rádio no fim de semana, segundo as quais o senador Aécio Neves, o governador Eduardo Campos, e Marina Silva não teriam condições de governar o País...
Veja bem a fraude que é a nossa mídia. Não disse isso. Eu disse o seguinte: são três pessoas muito boas - não sei como editaram a matéria -  enfim, disse que são pessoas preparadas, com espírito público, agora sinto um deserto de ideias. Nós vamos votar neste, naquele ou naqueloutro por que são meus amigos, gente boa, simpáticos? É ruim para o País. O governo Dilma está preso nessa coalizão fisiológica e tocando aí o dia a dia do governo fazendo essas pequenas iniciativas, truques fiscais, e está aí o País, amarrado nessa taxa pífia de crescimento econômico. Os autorreferidos  candidatos não apresentam uma ideia! Agora o Aécio, através dos jornais, disse que vai conversar comigo. Por que precisa conversar comigo e não fala na televisão para eu ver? Eu quero conversar com ele sempre, é meu querido amigo. Aí o Eduardo (Campos) diz que eu sou voz isolada dentro do PSB. Ora, eu estou cansado de saber que sou voz isolada. A questão não é essa. É como alguém quer ser o presidente da República e não se sente obrigado, constrangido e estimulado a andar pelo País, visitar o Brasil e falar o que pensa, o que está errado. Porque, se o cara é candidato contra a reeleição da Dilma, primeiro ele tem que sair do governo. Sou um velho que cultiva lealdade, coerência, decência.



A proposta do governador Cid Gomes (CE) é que Eduardo Campos fosse o vice de Dilma...
Cid é uma pessoa idealista e de boa-fé, mas sabe quando Eduardo vai ser vice? Nunca. Porque essa  coalização (PT-PMDB) acabou de ser cimentada com Renan Calheiros na presidência do Senado e  Henrique Alves na Câmara. Você acha que com esse espólio de poder, já tendo a vice-presidência da República, Michel Temer, eles vão trocar de vice?



Então, PSB vai ficar de fora desse processo de sucessão...
Claro que vai ficar. Sempre defendi candidatura própria. Mas a questão é: se nós queremos ter uma candidatura própria, temos que dizer por que e agora. Porque o povo não vai entender que a gente fique  comendo migalhas debaixo da mesa do banquete PT-PMDB e seis meses antes das eleições a gente saia do governo. Até porque o segundo lugar que era nosso na opinião pública brasileira é da Marina Silva. E quem vai representar essa negação pseudoética? Não que ela (Marina) não seja ética, ela é, mas o discurso como se fosse abastância de si mesmo do moralismo cristão, de um  ambientalismo difuso, essas coisas todas, é muito simpático. Agora, é assim que ela vai ser presidente da República? Ela quis quando era ministra do Meio Ambiente, minha colega, que o Brasil assinasse um tratado internacional declarando que energia hidráulica, nossas hidroelétricas,  era energia não renovável, o que colocaria na suspeição de insustentabilidade todo o aparato produtivo do Brasil. E ela mudou de ideia? Se mudou, quero saber. E o Aécio ao lado do Fernando Henrique? Exaltando a memória do Fernando Henrique. Quer dizer então que ele vai privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e a Petrobras, ou seja vai completar a "agenda modernizante" do Fernando Henrique. Não acho que ele seja propriamente isso, pois não vendeu a Cemig. Então porque ele está exaltando esse modelo? Ele não se elege exaltando esse modelo. O povo brasileiro quer uma coisa melhor, e o PT é muito melhor, com seus gravíssimos defeitos, do que o PSDB foi.



Na opinião do senhor, uma eleição presidencial que começa agora, um ano antes, não prejudica a economia? Ou, ao contrário, essa antecipação acaba sendo saudável para o País?
A questão básica é a seguinte: a eleição é para o ano da eleição. O que estou falando é para o debate do País. A hora de debater é agora que não tem eleição. Vamos ter clareza. Detesto esse teatro. Eu enjoei foi disso: o PSB votou contra  Renan, portanto discrepou da orientação do governo. O PSB lançou candidato contra  Henrique Alves, na Câmara, portanto também discrepou do governo. E na economia, nós estamos satisfeitos? Eu não estou. Acho que a economia do País está conduzida de forma errada. O momento exige muito maior criatividade e inovação, muito mais audácia...



E o senhor não está vendo capacidade na equipe econômica?
Não estou vendo o debate. É por isso que estou reclamando da falta de ideias, Tudo bem você é aliado, você fala. Tudo bem, sou aliado da Dilma e estou falando. Minha tendência hoje é votar nela. Por coerência, temos ministro no governo - embora não tenha a menor influência na área  estratégica do governo. Nunca fomos chamados para debater nada, e o PSB se conformou com isso, como se fosse um partido fisiológico desses outros tantos que infestam a base do governo. E nós não somos. Nossos seis governadores têm uma vivência. O governo agora vetou a distribuição dos royalties. Para atender a um Estado? E nós vamos ficar calados? Agora vão regulamentar a iniciativa de reforma tributária do senhor Guido Mantega. Isso é destruir o processo de industrialização do Nordeste com a unificação das alíquotas do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço) para atender exclusivamente ao egoísmo do fisco  paulista. E nós vamos ficar calados diante disso? Eu não fico.



O PSB deveria fechar fileiras contra essa reforma tributária do ICMS?
Sim.



E como está sendo essa discussão dentro do Partido Socialista?
Nunca houve. Qualquer outro tema que você perguntar é a mesma resposta. E o modelo educacional? O Brasil tem 50 milhões de pessoas analfabetas funcionais, 64% da população economicamente ativa. Qual a política industrial de comércio exterior que o Brasil tem? Por que o País faz substituição de importação em navio  tendo que pagar 30% a 40% mais caro do que comprar no Brasil e não faz um complexo industrial? Porque não tem política.



O governador Eduardo Campos convidou a ministra do STJ Eliana Calmon para entrar no PSB e ser candidata a governadora da Bahia pelo partido. Mas a senadora Lídice da Mata é manifestamente candidata ao governo. Isso não seria uma interferência externa?
Confio em você, mas prefiro não comentar esse assunto, porque não o conheço. Agora a tradição do nosso partido não é essas coisas de vir de fora para dentro e empurrar goela abaixo. Isso nunca foi."

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