segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Artigo: Compreensão e responsabilidade

(A) Aprendi no curso de Publicidade que não devemos fazer a propaganda para atender o nosso gosto ou o gosto do nosso contratante, o anunciante. Devemos adequar a peça publicitária a quem desejamos vender o produto dentro da realidade, nunca falando inverdades sobre o que está à venda. Isso é uma falha que muitos insistem em cometer. Fazer propaganda para si e não para seus clientes, e, pior, propaganda enganosa. Isso é regra básica.

Na política, foi-se o tempo em que ou se era de um lado ou de outro; onde não se mudava de opinião por um cargo comissionado; quando se defendia o que se acreditava com mais ênfase, sem a necessidade de esconder suas opiniões ou dizer que pensava de um jeito, mesmo que odiasse a ideia. O marketing político entrou em cena e nos últimos anos tem moldado candidatos como meras peças publicitárias. O preço é alto. Natal e o Rio Grande do Norte sentiram, e ainda sentem, na pele o preço de eleger uma boa peça publicitária no lugar de um bom gestor que tenha conteúdo, que seja preparado e que tenha um projeto de governo, não um projeto de poder.

Muitas vezes o político se sente intimidado, com receio de ser mal compreendido com o que fala. Quando a discussão envolve questões religiosas e sexuais, então, nem se fala. Dizer o que pensa pode ser fatal. Os adversários podem, e usam, de forma desonesta e escancarada tudo e qualquer coisa dita. Utilizando-se da força bruta contida no relacionamento dinheiro público X veículos de comunicação, quem está com o poder trata de imputar a fama de radical ou homofóbico, briguento ou preguiçoso. Lembrando a prática nazista de que uma mentira contada mil vezes pode se tornar verdade. Pelo menos no imaginário social.

O político, assim como a peça publicitária, precisa ser autêntico. Falar a verdade. A atuação política deve ser pautada pela ética e transparência, tanto nos atos públicos como nas linha de pensamento. Mudar de opinião não é crime. Somos seres imperfeitos, num mundo imperfeito e em permanente busca por melhoramento. A opinião pode ser aprimorada. Voltando à incompreensão, nem sempre é interessante externar tudo o que se pensa. Digo isso não somente relacionado à política. Na vida em família, no trabalho ou na mesa de bar, nossas opiniões podem ferir ou magoar alguém. Não dizer o que pensa é uma coisa, defender o que se pensa contrariamente, dizer acreditar no que acredita já é desonestidade. É como dizer "eu te amo" sem amar.

A sociedade precisa estar atenta, buscar conhecer o histórico de coerência e trabalho de seus gestores públicos. "Pão e circo", "jogar pra plateia" ou fazer "oba oba" vai de encontro àqueles que esperam pelos serviços públicos. Promessas não cumpridas e discursos vazios estão em toda parte. O marketing político tem dado sua contribuição para embelezar isso tudo. Assim como o gestor precisa pôr na balança a responsabilidade administrativa e a vontade popular, que em alguns momentos estarão em lados opostos, as pessoas políticas precisam ter a consciência de não mentir sobre suas ideias e suas intenções.

Na publicidade, existe o Conselho Nacional da Autorregulamentação Publicitária - Conar, que é responsável por julgar os casos de propaganda que possivelmente não sejam honestas. Quem julga o político é o eleitor, que fica no meio da avalanche de informações, muitas vezes enodoadas por interesses que nem sempre são publicizados. Mesmo correndo o risco de ser mal compreendido, o líder precisa ser honesto com seus seguidores e manter sua coerência e personalidade. O marketing pode ajustar a forma como a informação vai chegar, porém, nunca transformar uma pessoa em algo que não é. Ser compreendido é importante, ter responsabilidade é mais ainda. (Artigo do vereador Lairinho Rosado no jornal O Mossoroense de 23 de fevereiro de 2014).

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