quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Artigo: Ao amigo Eduardo Campos

(A) Era uma viagem de férias com a família. Um dos filhos, na época com uns 6 ou 7 anos, deu muito trabalho e deixou todos irritados. O castigo foi a volta ao hotel e o cancelamento da ida ao estádio de futebol. Depois de muito chororô, do pedido dos outros filhos, da esposa, ele resolveu ouvir "o Zé". O menino entrou, prometeu mundos e fundos, viraria quase um santo. O pai diz a ele que não adianta prometer e não cumprir. Iria conversar com a mãe para decidir se ele iria ou não ao estádio. Zé olha para o pai e pergunta "é um julgamento, pai?", "mais ou menos", "já sei! Mainha será o Lewandowski e o 'sinhô' vai ser o Joaquim Barbosa". José foi ao estádio. 

Eduardo Campos nos contou essa história algumas vezes. Dava gargalhadas. Ele adorava contar episódios engraçados, piadas, fazia imitações. A melhor imitação, aliás, era a que fazia do ex-presidente Lula. Cultivava alegria, deixava o rancor de fora. Eleito governador em 2006, Campos iniciara a campanha com apenas 3% nas pesquisas e venceu no 2º turno com pouco mais de 60%. Em 2010 foi reeleito com 84% dos votos dos pernambucanos. Deixou o governo em abril deste ano com mais de 90% de aprovação popular. Tornou-se conhecido, porém, antes disso. Pela sua capacidade de liderança e articulação no Congresso Nacional foi um dos principais articuladores no Legislativo durante o primeiro governo Lula. 

Muitas vezes solucionava impasses que pareciam impossíveis. Pelo estilo centralizador de governar, era alvo de críticas e elogios ao mesmo tempo. Fui apresentado a Eduardo lá pelo ano de 2008. Antes disso, apenas encontros protocolares. Tornei-me admirador do homem e do político. Com trejeitos e gírias nordestinês, conquistava os interlocutores com sua simplicidade e a capacidade de convencer as pessoas defendendo suas ideias. Arrebatava quem estava ao redor. Nesse tempo, aprendi a respeitá-lo. 

Em meados de 2011 participei de um almoço onde estávamos presentes eu, a deputada Sandra Rosado, a mãe de Eduardo, então deputada, "dona" Ana Arraes, a esposa de Eduardo, "dona" Renata Campos (o "dona" pode pôr na conta de Eduardo) e o argentino Diego Brandy. Sabe aquela imagem de um menino da cidadezinha do interior que fica babando quando assiste uma pessoa mais velha falando algo que o impressiona? Era eu ouvindo Eduardo. Foram quase três horas de bate-papo. Já o admirava, mas a partir dali passei a venerá-lo.

Em outra oportunidade, na última vez que esteve em Mossoró, estava indo deixá-lo no aeroporto. O motorista e ele no banco da frente, eu, Larissa e Sandra no banco traseiro. Fazia uma semana que Marina Silva era filiada ao PSB. Perguntei se era verdadeira a história de que quando Rodrigo Rollemberg o telefonara falando do desejo de Marina em filiar-se ao partido, ele perguntara se Rollemberg tinha bebido. Após confirmar a veracidade da história, vira-se pra trás e pergunta: "Isso tem ou não tem a mão de Deus? Isso só pode ser coisa de Deus". É, pode ser. Nossa compreensão nem sempre alcança os caminhos traçados por Deus.

A morte de Eduardo Campos chocou o país. A minha família foi atingida intimamente, tamanha é a admiração e o benquerer que sentimos por ele. Eduardo acreditava na gente, incentivava nosso trabalho, nunca nos faltou quando nos socorríamos a ele. Nós acreditamos em Eduardo, víamos nele a personificação de um sonho, de um modelo político, mas víamos, acima de tudo, um amigo. Quem sabe, o melhor amigo que a política nos deu.

Ao longo desses anos, sempre que tinha oportunidade de estar com Eduardo, lá estava eu tentando aprender algo com ele. Sempre posava para fotos com ele. "E aí, Lahyrinho, firme?", perguntava. Da última vez que estivemos juntos, na convenção nacional do PSB, eu estava cabisbaixo quando ele ia passando. Parou, me chamou e perguntou "Lairinho, não vamos tirar nossa foto, cabra?". Tiramos a foto.

Dos que estavam no avião, conhecia ainda Pedrinho Valadares e Percol. Gente da melhor qualidade. Toda equipe era fascinada por Eduardo, o que transformava o ambiente de trabalho em um ambiente supersadio. A todos, minhas orações. Em especial para Renata, Maria Eduarda, João, Pedro, José o pequeno Miguel. Descansem em paz, meus amigos. (Artigo de Lairinho Rosado no jornal O Mossoroense de 17 de agosto de 2014).

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